terça-feira, 24 de setembro de 2019

Experimento com Aedes do Bem em Jacobina gera dúvidas entre cientistas

Transgênico deveria reduzir população de mosquito, mas falhou, afirma artigo; ministérios analisam resultados

Criado para combater epidemias de dengue, o mosquito ‘Aedes do Bem’, geneticamente modificado, tinha todas as credenciais de um herói nacional: alado, ele lutaria contra os males da doença e diminuiria a existência do transmissor, o Aedes aegypti comum. Liberado aos montes em Pedra Branca, no município baiano de Jacobina, em 2013, o Aedes do bem agora é alvo de uma investigação federal que analisa as possíveis consequências da criação de um outro mosquito - resultado do cruzamento entre o transgênico e o comum, mas que resiste ao ambiente.
A investigação começou após a publicação de um artigo científico este mês na revista internacional Scientific Reports, da Nature Research. De acordo com o estudo, uma anomalia foi identificada no experimento.
A princípio, os geneticamente modificados tinham a capacidade de , sem afetar a genética do Aedes comum. No entanto, o estudo concluiu que os mosquitos transgênicos transferiram genes para a população de Aedes aegypti nativa, criando um ‘mutante’.
Por conta do artigo, o Ministério da Saúde informou que solicitará formalmente à empresa britânica Oxitec, responsável pela modificação genética, que realize o monitoramento dos insetos das populações de Aedes aegypti em todos os municípios em que a empresa realizou a soltura de espécie modificada - Jacobina, Juazeiro, Juiz de Fora (MG) e Indaiatuba (SP). A Oxitec terá que comprovar que os mosquitos híbridos são seguros para o ecossistema e para a população. 
De acordo com o artigo científico, cerca de 450 mil machos foram soltos por semana durante dois anos e três meses em Jacobina. Calcula-se que, por mês, eram liberados 1,8 milhão de Aedes do Bem (ou OX513) no ar, totalizando cerca de 48,6 milhões de insetos transgênicos lançados no bairro de Pedra Branca. Em média, cada mosquito vive um mês e a fêmea coloca entre 150 e 200 ovos. 
O documento defende que os resultados apresentados nas pesquisas dos cientistas destacam a importância de ter um programa de monitoramento genético durante esses tipos de liberações para detectar imprevisibilidades.
Procurada pelo CORREIO, a Oxitec afirmou que o experimento realizado no interior da Bahia seguiu todos os parâmetros legais (leia mais abaixo).
A empresa afirmou, ainda, que os mosquitos geneticamente modificados não resistem no ambiente e que, portanto, não criam mosquitos mais potentes.
“Os mosquitos transgênicos não criam mosquitos mais resistentes – é exatamente o contrário: o próprio artigo da Scientific Reports, assim como outros publicados à época, mostraram que a linhagem OX513 desaparece do ambiente algumas semanas após a interrupção das liberações, como esperado”, diz a Oxitec.
Riscos imprevisíveis
Apesar da defesa da empresa responsável pelo experimento, a liberação dos mosquitos geneticamente modificados é vista com preocupação por outros cientistas, além dos envolvidos no estudo que deu início às discussões.  

É o caso do professor José Maria Ferraz, do Laboratório de Engenharia Ecológica da Unicamp. O pesquisador fez parte da comissão que avaliou a liberação ou não do experimento em Jacobina e diz que, à época, apontou irregularidades que fariam com que o experimento não devesse ser liberado.
“Fui a Jacobina para ver o local e várias irregularidades foram apontadas naquela época. O grau de risco atribuído ao experimento foi o que geralmente se atribui a experimentos com plantas, e plantas não têm o poder para se reproduzir e se espalhar no ambiente. O risco com animais é sempre maior”, explica. 
O professor afirma, ainda, que o experimento, como foi feito, envolveu risco à população. “Não foi feito nenhum estudo em laboratório antes de liberar no campo, eles jogaram em cima da população, de pessoas. Qualquer experimento com pessoas precisa de consentimento, o que não ocorreu. A população de Jacobina foi a primeira população brasileira que foi exposta a esses mosquitos”, diz o professor.
A Oxitec nega que a liberação dos mosquitos teria ocorrido prematuramente e afirma que, antes de chegar a Jacobina, já realizava estudos para há 14 anos. “No local, foram 36 semanas de estudos antes da liberação dos mosquitos. É um equívoco afirmar que a liberação foi precipitada”, diz nota.


FONTE CORREIO 24 HORAS

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